Quinta-feira Fev 22, 2007

Minhas fotos de família - e ODF

Eu estava passando uns dias com meus pais há alguns anos, quando resolvi olhar fotos da minha família guardadas em uma caixa de sapato. Estava me divertindo com as fotos - até que percebi que a maioria das fotos era a cópia original. Quero dizer, eram as únicas cópias. No planeta inteiro. E que havia apenas duas ou três fotografias de, no mínimo, uma das pessoas que fizeram parte do passado de minha família. Uau.

Em uma caixa de sapato, pensei. Que antiquado, certo? E se houvesse uma inundação ou, bata na madeira, um incêndio? Elas são fotografias que desejo compartilhar com a minha família e passar para as gerações futuras. Eu quero que meus filhos conheçam sua própria história. E os filhos de meus filhos, e assim por diante.

Portanto fiz o que qualquer filho considerado faria e convenci meus pais a me deixar raptar a caixa; voltei para casa e digitalizei as fotos (e devolvi a caixa).

E então as fotos digitalizadas estavam bem guardadas no meu disco rígido. Em meu laptop. Na cozinha de minha casa (onde fica o meu laptop).

Em face da atividade diária da cozinha, é provável que fosse um lugar menos seguro que uma caixa de sapato. Quem diria. Primeiro golpe.

Então resolvi gravar alguns DVDs. E os distribuí pela casa e dei alguns para outros membros da família. Basta dizer que, a maioria dos administradores de sistemas leigos são chamados "leigos" por uma razão... a maioria dos DVDs foi perdida. Segundo golpe.

A boa notícia é que, como alguém esperto disse um dia, a rede é o computador, e há algum tempo eu decidi carregar as fotos no serviço de fotografia online que utilizo. Se você vai tomar conta de uma caixa de sapato, por que não contratar alguém que já está cuidando da caixa de sapato de outras pessoas e, na verdade, talvez seja a melhor pessoa no mundo indicada para essa tarefa.

Daí eu pensei...

Como posso garantir que o serviço existirá no futuro, ou que serei capaz de visualizar as imagens que lá armazenei - não em um ano, mas em cinco ou cinquenta anos? E se as imagens durarem mais do que a tecnologia?

E com isso em mente, você agora pode compreender ao menos um dos verdadeiros motivos por trás do que chamamos de Formato de Documento Aberto (ODF).

Imagine a si mesmo como um legislador que cria uma lei, ou um médico que registra o histórico de um paciente, ou um estudante que escreve um livro. E que daqui cinco ou cinquenta anos, você vai querer rever aquele documento. Contudo, o fornecedor que criou o aplicativo usado para gravar aqueles documentos - a empresa que criou o processador de texto ­ já não existe mais ou decidiu cobrar $10.000 por uma versão capaz de ler formatos de arquivo antigos. Qualquer um destes cenários serve para demonstrar que informações sempre duram mais que a tecnologia.

O que você faz?

Primeiro, você reclama. Afinal, as informações que criou são suas, e não do fornecedor. Assim como no caso de fotos de família, a última coisa que deseja é um fabricante de câmeras exigindo mais dinheiro para que você possa ver as suas fotos. Esse é o perigo dos aplicativos sem formatos de arquivo abertos. Lembre-se, as informações sempre duram mais que a tecnologia.

Por essa razão, nos juntamos a algumas das empresas de tecnologia mais importantes do setor e alguns governos e órgãos no mundo todo para criar o que chamamos de Formato de Documento Aberto (também conhecido como 'ODF'). O ODF define um formato aberto para informações baseadas em documento que não depende dos aplicativos usados para criar os documentos gravados como ODF.

E essa é uma forma sofisticada de dizer que se você gravar um histórico médico ou uma lei, ou um documento regulamentar, em um processador de texto com suporte ao ODF, e tiver de acessá-lo a qualquer momento no futuro, você terá a liberdade de fazê-lo do modo que desejar. Sem ficar nas mãos de um fornecedor de aplicativo. O ODF é um verdadeiro padrão aberto, adotado e implementado por vários fornecedores (da IBM à Sun, Google, Red Hat e agora até mesmo a Microsoft), além de milhões de pessoas no planeta. Isso tudo sem cobrar royalties.

A durabilidade das informações e os formatos de arquivo são questões muito importantes para instituições ou empresas com políticas de retenção de documentos que vão além da vida útil dos aplicativos (e dos funcionários) que criam o documento, e garantem que as informações estejam disponíveis no futuro. O mesmo se aplica a fotografias na caixa de sapato - como CIO da minha casa, eu desejo que as imagens durem mais do que eu.

E caso você tenha sentido falta do item de menu, estamos trabalhando com a Google para garantir a interoperabilidade entre os documentos do Google Office e documentos OpenOffice - tirando proveito do ODF como mecanismo de troca. Qualquer documento criado no Google Office pode ser exportado com facilidade (e em breve, importado) para o OpenOffice (veja a figura). Juntos, os dois produtos permitirão que empresas e indivíduos preservem o acesso (no mundo todo e por várias gerações) a leis, contratos legais, registros médicos, agendas e planos estratégicos. Bem como a planilhas e apresentações.

Por fim, para aqueles que não conhecem o OpenOffice, este é um conjunto de produtividade gratuito que assim permanecerá, destinado a empresas e usuários finais. No que pudemos calcular, já distribuímos milhões de cópias no mundo inteiro (baixe aqui). E agora que a Microsoft anunciou o suporte ao Formato de Documento Aberto, os usuários podem ter certeza de que o OpenOffice pode ser adicionado a qualquer ambiente, em casa ou no escritório, não apenas nas nações em desenvolvimento, mas também nas desenvolvidas. Em algumas semanas, você será capaz de baixar um plug-in ODF aqui, que permitirá que o Microsoft Word salve e leia, por padrão, qualquer documento ODF. Uma vez instalado, você verá isto no painel de Opções do Word:

(Vou fornecer um link quando o plug-in estiver pronto.)

A partir de então, o ODF vai se tornar seu formato padrão. Quer seja um funcionário de uma empresa petrolífera ou um estudante colegial, o ODF permitirá a interoperabilidade total entre ambientes de fonte aberta e fonte fechada - enquanto o padrão, e não a tecnologia ou o produto, durar.

Do ponto de vista corporativo, isso também permite uma migração natural em grandes instituições - a equipe de front office poderá usar o Microsoft Word, porém o resto da empresa poderá mudar para uma opção compatível (por exemplo, o processador de texto do Google ou OpenOffice, ou ambos). O fato de ser gratuito e a interoperabilidade proporcionada são excepcionais para a Internet, e para as futuras gerações que deverão utilizá-la.

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